23 de dezembro de 2007

Ao trasmutável

Eram pilhas de versos sinceros
Verdades elaboradas, valores definitivos
Veio a chuva, trouxe o sono
E o que era concreto nos olhos serrados
Encorajante na mente embriagada
Transmutou-se em algo insólido
E trasportou-se para estratosfera

15 de dezembro de 2007

Passos leves

Por três dias fiz-me testemunha de Sidarta e Govinda
Ao passo que redescobri os fragmentos do Album Branco
Em constantes dúvidas dissonantes
Alternando o sóbrio e o ébrio estado dos sentidos
Alimentando-me, contaminando-me
Buscando o que é intrínseco e desperta incredulidade dos céticos
Sempre mais perto, sempre mais profundo
Esbarrando-me constantemente nos vícios do corpo e da alma
Envolto pela imensa e traiçoeira liberdade de significá-los como bem entender
E assim que se mergulha em divino caos diabólico
O livre arbítrio flerta sádico com sua existência durante os passos leves da madrugada

17 de novembro de 2007

Consonante

Peça morta do xadrez
Coça a nuca outra vez
Tenta se encaixar no quadro
No quebra-cabeças não enquadra
De mágico nada tem seu cubículo
Sentado, aproveita o martírio
Deixa logo as cartas pros envelopes
E essa jogatina ao seu submundo torpe
É preferível ser poeta livre
Do que viciado angustiado de baixo calibre

16 de novembro de 2007

O que deve ser

meu espírito empirista vasculha lúcido como pode
tudo o que acha pela frente e digere segundo o que pensa
tento alimentá-lo com o que acho precioso
mas às vezes, muitas vezes, acho insuficiente
nem sempre é tão simples classificar, quem dirá encontrar
num mar de verbos consolidados, entre ações e metáforas
que soam tão verdadeiras quando são fruto de pura mesquinharia
quando apoiar-se em pilares frouxos torna-se inseguro
a melhor opção tonar-se abrir as asas
e voar em direção ao que cheira melhor e soa mais agradável
mesmo que o agradável seja vil ou asqueroso

algumas coisas merecem ser lidas e outras tantas sentidas
já outras pelo contrário precisam sê-lo
o desperdício é sempre uma imbecilidade
já deixar de lado, é algo que faz-se necessário
ter perdido por ter deixado de lado é frustrante
o inverso pode ser tanto sadista quanto piedoso, melancólico
ditos vazios brotam como resposta de atos vazios
e do racionalismo que persiste, diz-me, não só a mim
Faça o que deve ser feito, apenas

Pulsante

os ventos infames faziam ranger
qualquer coisa que sofria barulhenta num canto escuro
a noite havia vestido seu pijama
tudo o mais aos arredores adormecido em tédio,
marasmo de gosto amargo
de súbito o sentido da correnteza altera-se
ascende-se uma fagulha prestes a incendiar
pólvora que carrego sempre comigo

mergulho atroz na atmofesra inerte e congelante
e parece mesmo que não é fora que estão as coisas
conturbados momentos solitários
rumo ao que está mais ao fundo
e contorse ancioso por liberdade
e lutando com algo intruso que implantou-se clandestinamente
a própria liberdade batendo asas para voar
e gritando versos contra o vento que rasga a face
num gracioso conjunto de paços de dança
a Lua não pode ser testemunha
quando a sombra atingiu incríveis sete metros de comprimeto
ou quando acompanhou-me em divino ritual de libertação
botões, moedas, chaves e o amuleto
tornaram-se o chocalho da cauda da serpente
enquanto minha face refletida na janela
soprou-me novas verdades e semeou algo novo em sob minha pele
que agora começa a correr esquentando meu sangue
e ferve enquanto passa pelo miocárdio