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25 de abril de 2010

Situação anêmona

situação anêmona/anemoníaca
tem máculas, tentáculos
marasmo e heresia/maresia
insalubre e lúgubre

tempo ósseo/ocioso
a vida toda muda
imóvel sem falar
ou mover-se, danoso
...


danou-se o peixe/palhaço
pobre parece preso
pela predadora perigosa
ou não: prestando atenção:

de antepasso o peixe sabia
que sendo palhaço se protegia
e caia na graça do séssil
salvando-se de ser fóssil

Joia

quero um mundo para mim
viver poesia e coisa afim
cor, batuque, referência
sem fim

rir grátis, de nada obrigado
rir práxis, de tudo, embriagado

hoje em dia-a-dia
a manhã de amanhã
uma boa tarde sã
que eu dormia

sempre, sem pressa
a mais nova cria: são
tempos difíceis de
conversa, depressa
muito blablablá
que não me interessa:
compilação de pinóia
com puta razão
prefiro permanecer
jooooooooooooooia

22 de abril de 2010

porra, as moscas
da minha louça
suja, sujas, sujo
encomodam, toscas
desapareceram, finjo
nada...ainda estão, todas
voando, loucas
pela sujeira da minha louça
caracol
lesmando a calçada
se manda, sem nada
que eu veja além
de torrar no sol
sem lamento
câmera lenta
no aconchego da concha
concha? casca, espiral
muito bonita por sinal
encosta a casa nas costas
e veja só: não precisa de aspirador de pó

às vezes eu me identifico com um caracol

3 de fevereiro de 2010

Joe e as baratas

Joe e as baratas foram almoçar
no chão da sala de estar

Quanta merda retirada das ruas e calçadas
"Delas tendem a nascer coisas belas", disse então Rodnei Baratão

Cine trash Pop B a tarde na tevê...

Joe correndo contra o tempo atrás do jardim que se perdeu no beco
Tudo desabou

E as baratas mutualisticamente cooperando em stop motion reegueram o jardim de Lili
Joe e Lili agora podem amar e as baratas tem seu lar-doce-lar.

2 de fevereiro de 2010

rocambole de feijão

seus argumentos estão
saturados de gordura trans
transmitindo momentos
de aflição

minha mãe que assistiu
o piá que se entupiu
de batata frita se fritou

sem feijão não tem
bucho que aguente
nem bicho que se sustente

seu sotaque crocante
palavriado doce
(antes fosse)
não diz nada de importante
hidrogenada nada nada não
estragou-me a refeição

temperamento agressivo
eloquente discursivo
afobamento agudo
fala sem fim come só meio
e eu ficando barrigudo
e de saco cheio

10 de outubro de 2009

alguém pode me dizer
pra que gastar a vida cortando papel
ou correndo atrés da aluguel
pra pagar em dia

nossos velhos cliches em heresia
se reciclando e nos convencendo
(pensando enquanto correndo
sob o sol ou chuva que fazia - tanto faz o dia)
do que é preciso

mas o que eu preciso?
não sei ao certo porque não tive tempo de pensar
usei meu tempo pra pensar
no trabalho que tinha pra entregar
ou no que tinha pra arruamar
(são sempre as mesmas rimas de sempre)
(me enrolo na minha própria serpende)

meu, oh meu bem
não fiz banda e nem carreira
sou refém de mim
e de uma suposta vida sou afim

que tal então tomar quentão
e procurar quebrar/uma nova rima achar
porque (e você a essa altura já deve saber)
tá foda
só no almoço tomar uma soda pra relaxar
com essa história de desse-por-satisfeto-com-o-rocambole-de-queijo
no máximo posso não me lebrar de estupefar
mas poxa, quero a tal falada
moragada a beira da brasa
(?)
enfim

11 de agosto de 2009

quando me encontrar
pergunte onde foi parar
cabeça avuada
comigo carregava
peso no peito
dor não sei de quê

pra quê
se preocupar
em contar os passos
se os pássaros cantar
é mais legal de olhar
ou
pra quê
contar os pássaros
se cantar aos passos
é mais legal: não me conte

fui passear
sei lá onde fui parar
me avise
se me avistar
andei descalço
pisei em falso
deve tá chegando
qualquer hora aí
já já taí
pera mais um pouco
ja tô ficando louco
mas já tá na hora
podia ser agora

onde é que tá?
onde foi pará?
quando vai chegá?
já deve tá aí

vai mais depressa
ou nem venha mais
deixa disso meu rapaz
pra que toda essa pressa

28 de julho de 2009

de noite me deitei mais cedo e
levei pra cama comigo
meu caderno e mais dois livros

joguei fora a água parada e
deitei com outro cobertor
de baixo da luz apagada

fiquei aceso com o abajur e
com uma madruga (começando) molhada
pensando em me mudar

tempo que não muda: já estou ficando nublado
tendo que guardar chuva, já que a descarga da latrina tá quebrada
(sempre achei da latrina e quis dar descarga nas coisas de ordem prática)
e agora? prestes a talvez mudar de vista de janela de piso de sofá de pia geladeira azulejo estampado e uma porção de coisas que nunca precisei
mas que começam a fazer falta
que impasse: me apego fácil
gosto de ficar
sentado e
me acostumar

essas coisas nem são minhas;
então vou talvez guardar as coisas na mala (as minhas)
ir usando meus dias pra me desapegar
matar saudades do que ainda não me distanciei

fiquei na penumbra e esqueci
que posso me deixar em qualquer lugar
já que moro dentro de mim

15 de julho de 2009

amanheci com gosto de noite
sem precisar dizer que,
sem vontade de dia,
a tarde me puxou
depois de matar a manhã
e, devidamente despertado,
me obrigo a parar a madrugada.
Rotina ingrata.

3 de maio de 2009

venha, vamos viver
você que inveja a velocidade
e tem vontade
de ver de verdade

tente terminar a trama
entrando na transa
sem traumatizar a terra
ou trair o estrume

faça sentido sempre
mesmo sem parecer
o som se apossa desses versos
mesmo sem eu querer

vejam vocës quanta coerencia
Vai, e cospe a asia do seu estômago
antes que ela te engula e te vomite.
Para de tragar esse ar estragado
que te destroça por dentro
e derrete até a tua sombra.

Te sobra o que pensar mas te falta pra onde olhar.

Pobre garoto,
podre senso autodestrutivo
triste afinidade.

23 de abril de 2009

não sei, não sei
sensação de aperto
insensata
se manifesta
e não se manda
não se manca
que não tem praquê
só pra se ver
só se for
mas já vi
então já podia ir
quem é
que enche a boca pra falar
ou que fala de boca cheia
- da boca pra fora,
com propriedade autoproclamada
em tentativa frustrada
de encher a alma vazia?

ou quem
se enche do que acha pela frente
com medo de ficar vazio?

21 de março de 2009

plantei sementes de vento
em nuvens de algodão
pra soprar o fim o verão
e poder chover com calma
enquanto decanto minha alma
Pétalas de sulfite,
brasas de grafite,
perfume vicioso.
A mão corre e tenta traduzir
o que o pensamento amorfo,
do terreno fértil de ideias,
suspira sem esforço.
Polinizo e cultivo:
nasce morto
outro broto de rabisco,
que no cemitério do pomar
enterrro pra adubar.

28 de janeiro de 2009

num minuto distraído
traído pela minha atenção
esqueço do mundo
me perco
num segundo nu

múltiplo segundo
múltiplo sê mundo

quem quer saber do ar
quem quer saber tragar
quem quer saber dos outros
quem quer saber do pouco que tem fora daqui
quem quer saber do espaço
que existe entre as coisas
ou vazio
dentro das coisas
quem quer saber do tempo
quem quer saber do lamento
quero só saber
de não saber de nada

nem escudo nem espada
nem estudo nem escala
nem tudo nem nada

quero esquecer do segundo
me perder num mundo
que o tempo seja mudo

20 de janeiro de 2009

Café

Café preto numa mesa
de madeira num sofá
vermelho. Açúcar, tá?

Expresso? Ah, bem que tento.

objeto

poe-
sia
é
que
nem
pensamento

sem
o
que
pen-
sar
pensamento

não
há.
Poe-
sia

tem se há

al-
go
que

pra
se poetar.