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10 de outubro de 2009

alguém pode me dizer
pra que gastar a vida cortando papel
ou correndo atrés da aluguel
pra pagar em dia

nossos velhos cliches em heresia
se reciclando e nos convencendo
(pensando enquanto correndo
sob o sol ou chuva que fazia - tanto faz o dia)
do que é preciso

mas o que eu preciso?
não sei ao certo porque não tive tempo de pensar
usei meu tempo pra pensar
no trabalho que tinha pra entregar
ou no que tinha pra arruamar
(são sempre as mesmas rimas de sempre)
(me enrolo na minha própria serpende)

meu, oh meu bem
não fiz banda e nem carreira
sou refém de mim
e de uma suposta vida sou afim

que tal então tomar quentão
e procurar quebrar/uma nova rima achar
porque (e você a essa altura já deve saber)
tá foda
só no almoço tomar uma soda pra relaxar
com essa história de desse-por-satisfeto-com-o-rocambole-de-queijo
no máximo posso não me lebrar de estupefar
mas poxa, quero a tal falada
moragada a beira da brasa
(?)
enfim

11 de agosto de 2009

quando me encontrar
pergunte onde foi parar
cabeça avuada
comigo carregava
peso no peito
dor não sei de quê

pra quê
se preocupar
em contar os passos
se os pássaros cantar
é mais legal de olhar
ou
pra quê
contar os pássaros
se cantar aos passos
é mais legal: não me conte

fui passear
sei lá onde fui parar
me avise
se me avistar
andei descalço
pisei em falso
deve tá chegando
qualquer hora aí
já já taí
pera mais um pouco
ja tô ficando louco
mas já tá na hora
podia ser agora

onde é que tá?
onde foi pará?
quando vai chegá?
já deve tá aí

vai mais depressa
ou nem venha mais
deixa disso meu rapaz
pra que toda essa pressa

28 de julho de 2009

de noite me deitei mais cedo e
levei pra cama comigo
meu caderno e mais dois livros

joguei fora a água parada e
deitei com outro cobertor
de baixo da luz apagada

fiquei aceso com o abajur e
com uma madruga (começando) molhada
pensando em me mudar

tempo que não muda: já estou ficando nublado
tendo que guardar chuva, já que a descarga da latrina tá quebrada
(sempre achei da latrina e quis dar descarga nas coisas de ordem prática)
e agora? prestes a talvez mudar de vista de janela de piso de sofá de pia geladeira azulejo estampado e uma porção de coisas que nunca precisei
mas que começam a fazer falta
que impasse: me apego fácil
gosto de ficar
sentado e
me acostumar

essas coisas nem são minhas;
então vou talvez guardar as coisas na mala (as minhas)
ir usando meus dias pra me desapegar
matar saudades do que ainda não me distanciei

fiquei na penumbra e esqueci
que posso me deixar em qualquer lugar
já que moro dentro de mim

6 de junho de 2009

passo a passo caminhada maquinal / gasto pensamento com praxis / vou passeando pelo sistema digestivo da máquina invisivel / invisivel pelos olhos desatentos / inevitavel para os carações aflitos ( com os quais esbarro cotidianamente / apreendo consciente ao passo que crio listas (de coisas de pessoas de gestos de pensamentos e situações de conceitos e preconceitos / o cimento da rua faz tudo girar e se cruzar / eu anseio e desejo e tenho medo e quero mais / ouço o som que vem dos predios das salas dos quartos dos terços do contratempo (que no fundo são / pessoas com voz
tempo que se sublima e nos consome / cada vez mais escasso deixa cansaço / cada vez menor me sinto cada vez maior / meu reflexo em alguns olhos é inanimado / mas nos seus (olhos) e com o seu (reflexo) sinto vida

3 de maio de 2009

venha, vamos viver
você que inveja a velocidade
e tem vontade
de ver de verdade

tente terminar a trama
entrando na transa
sem traumatizar a terra
ou trair o estrume

faça sentido sempre
mesmo sem parecer
o som se apossa desses versos
mesmo sem eu querer

vejam vocës quanta coerencia
o vulto do ovo da ave voa veloz, veja voce que inveja a verdade de voar vendo vento vibrar vossa vontade de vida

28 de janeiro de 2009

num minuto distraído
traído pela minha atenção
esqueço do mundo
me perco
num segundo nu

múltiplo segundo
múltiplo sê mundo

quem quer saber do ar
quem quer saber tragar
quem quer saber dos outros
quem quer saber do pouco que tem fora daqui
quem quer saber do espaço
que existe entre as coisas
ou vazio
dentro das coisas
quem quer saber do tempo
quem quer saber do lamento
quero só saber
de não saber de nada

nem escudo nem espada
nem estudo nem escala
nem tudo nem nada

quero esquecer do segundo
me perder num mundo
que o tempo seja mudo

19 de janeiro de 2009

Dúvida

Quando hesito (não hesite)
só uma coisa existe:
a dúvida
se vou ou se fico.
Se penso, não vou;
fico e penso:
na próxima eu vou

18 de janeiro de 2009

Perdição II

Saí do quarto abafado - já estava ficando chateado
As bebidas de lá não me matavam a sede
O que havia lá pra comer não me matava, quando tinha, a fome

Foi bom ter entrado, se assim não fosse
Nunca teria saído, não assim
Altivo

Lá pensei tanto, falei tanto
Cantei tanto, em todo canto
Meu cabelo cresceu
Meu espírito cresceu
Cresceu até
a vontade de mudar; mudei

Encontrei-me criminoso, incriminei-me
Plantei pecado, colhi a pena
E valeu a pena

No meio de tanta coisa que era incerta, acertei
O que era vago se encheu, enchi a mochila
Depois que vi o sol nascendo cheio de ar de manhã
Saí sorrateiro pela porta dos fundos
Em direção à sombra perfumada

Ficar deitado ou passear pelo gramado
Tanto faz
O ar fresco com cheiro de liberdade
Um pequena liberdade que encontrei, por fim
Me libertei, enfim

sobre pedras

As coisas por si só não existem não
Por si só, a coisa simples, é não
é Nada

Só existe a impressão
A pedra que eu vejo existe - existe o que eu vejo da pedra então
O que você vê da pedra tem também
Mas sem ninguém, pedra não tem
E a pedra que vejo, não é a pedra que você vê
A minha pedra só existe pra mim
A sua só pra você, é assim:
Concordamos ser a mesma
Por pura gentileza

17 de janeiro de 2009

Passo e fico: pacífico

é tão simples...

São como um poema (as coisas)
que fala de alguma coisa
que é como é (as coisas são o que são, apenas)
E como a coisa (é o que é)
o poema é o poema que é

As coisas são substantivos
Seus adjetivos nós que as damos

Coisas, Palavras
Palavras são palavras
Coisas são coisas
Que arbitrariamente
associamos aos pares
Palavra-coisa e
confundimos

Vamos guardar os pequenos momentos do mundo
pequenos momentos de nossa existência
em pequenos poemas para o mundo
para o nosso mundo
para a existência
nossa existência
existência de nossa
existência

Passo e fico: pacífico





*Pensamentos que tive enquanto lia o guardador de rebanhos do fernando pessoa/alerto caeiro que só mais tarde vou digerir

28 de novembro de 2008

me chamam de confuso
me chamam de babaca
querem me dar um tiro
querem que eu acorde cedo
que eu quebre um galho em troca de cerveja
que eu pense tudo denovo antes da certeza
que escute o que tem pra falar
que eu fale o que tem pra escutar
que eu gere alguma fofoca nova
que eu me dê bem na prova
que eu seja criativo
não seja impulsivo
que me desbobre e termine
aquelas idéias do zine
que eu não me molhe
que eu arrume a casa
que eu organize o meu tempo
querem que eu decida minha vida
que é passagem só de ida
e fico só querendo saber
o que eu quero querer
maldita página em branco

11 de novembro de 2008

nunca se perdeu tanto tempo
discutindo sobre o tempo
nunca pensamos tanto em espaço
perdendo tanto espaço
mas há tempo somos prolixos
sem nada pra dizer

continuamos sedentos
sem saber o que querer
perdidos sem querer
estupefados sem saber
e gastando o tempo
só pra passar o tempo

acusa pra não carregar culpa
aponta pra sair da ponta
e lavamos as mão pra tanta sujeira
enquanto rimos de toda essa grande besteira

6 de novembro de 2008

voz

mesmo que eu dominasse a lingua dos monstros
ou fosse capaz de produzir esses estrondos
não acataria essa sua mentalidade hostil
ou partilharia do espírito vil

mesmo que não faça sentido me dar ouvido
ou que essa experiência não tenha coerência
tudo que se fale de algo vale
mesmo que seja capricho ou vá pro lixo

me acusa de subversão porque meu discurso não tem inteção
e eu me pergunto o que esotu fazendo
e se não estou me contradizendo

é uma pena que a verdade não seja assim tão plena
pensando bem, vou mais além
por nosso conflito é que existo

24 de outubro de 2008

meu espaço me envolve
enquanto o tempo se dissolve
me fomentam a sensação
sinto a percepção
que eu mesmo criei
em função do movimento
que conduz meu experimento
amanhã eu (re)tento
o que já iniciei
me cansei
mas repensei
acabei percebendo
outra vez
acabou acontecendo
recomeçarei, talvez

14 de outubro de 2008

como podem ser
recortes formalizados em uma composição elegante
esbanjando profusão em guerra semântica de seu pequeno (uni)verso

sentimentos que deixam pegadas de elefante
com olhos que não param de ler
grande falta de educação, por vezes expresso

mas é que seu rosto melancólico assim sem me perceber
me faz lembrar da relação alcóolica que tivemos ao amanhecer

aspiro as cinzas daquelas efêmeras brasas
que com esse seu ar despreocupado se opõe
sinto-as agudas em meus pulmões

7 de setembro de 2008

preste atenção

parte I

nem tudo que acontece aparecere
e não só o que aparece acontece
simples, parece
mas não é assim que acontece

parte II

nos porões, debaixo dos lençóis, onde o sol não bate
as idéias se fazem e os conceitos concedem direitos

parte III

geração espontânea: o leite nasce de embalagens tetrapack (mas depois que você abre só sai, não nasce mais)
a luz vem das lâmpadas
pensamento e intuição são o mesmo

obs.: o sentido é ascendente, mas pode não estar em todas as partes