19 de janeiro de 2009

verso de hoje

Parnasiano-Simbolista-Moderno
o verso hoje não é nada
pensa que tem verbo eterno
e não tem vergonha de não durar
nem até o fim do poema

tem um ou outro com meta (linguagem)
não é lá muito elegante
informal, jamais usaria um terno
vez ou outra se veste pós-moderno
(ouve todo tipo de música
se envolve com todo tipo de mulher
se apaixona
revoluciona
se enche de signos
e o significado esconde)

com uma bimbadinha sai cheio de rima
despojado - ou vagabundo - não se mede
mas sempre que o poeta pede tá lá
dançando como ele só
espontâneo e sem dó
(gente boa esse verso de hoje...)

Cuidado

Cuidado
Não vá atrapalhar o santo sono
da noite que dorme
com medo que o barulho se trasforme,
cresça e se torne insônia.
Crença que na noite se dorme.
Quem fica acordado, a noite engole.
Só devolve quebrado, depois da madrugada.
Vingativa, rouba o dia como quem diga:
_ Cuidado! Não vá ficar acordado...

Dúvida

Quando hesito (não hesite)
só uma coisa existe:
a dúvida
se vou ou se fico.
Se penso, não vou;
fico e penso:
na próxima eu vou

18 de janeiro de 2009

Perdição II

Saí do quarto abafado - já estava ficando chateado
As bebidas de lá não me matavam a sede
O que havia lá pra comer não me matava, quando tinha, a fome

Foi bom ter entrado, se assim não fosse
Nunca teria saído, não assim
Altivo

Lá pensei tanto, falei tanto
Cantei tanto, em todo canto
Meu cabelo cresceu
Meu espírito cresceu
Cresceu até
a vontade de mudar; mudei

Encontrei-me criminoso, incriminei-me
Plantei pecado, colhi a pena
E valeu a pena

No meio de tanta coisa que era incerta, acertei
O que era vago se encheu, enchi a mochila
Depois que vi o sol nascendo cheio de ar de manhã
Saí sorrateiro pela porta dos fundos
Em direção à sombra perfumada

Ficar deitado ou passear pelo gramado
Tanto faz
O ar fresco com cheiro de liberdade
Um pequena liberdade que encontrei, por fim
Me libertei, enfim
alguém roubou o livro da biblioteca
(onde alguns já o teriam conhecido)
ou ficou com ele quando ela fechou
ou só carimbou com o carimbo de lá
depois não quis mais saber dele
e vendeu, ou deu, ou esqueceu
ou não: foi roubado, se enganou
não se sabe por quantos desse passou
mas acabou no sebo perdido
na prateleira de prosa:
Literatura Brasileira
gostei da capa dura e o nome era familiar
troquei por uma nota de cinco e levei
não sei quem tudo leu
quem é dono de cada rabisco
mas por um belo acaso
foi bem bom
dividir com tanto estranho
os versos de Drummond